O escurecer da escrita


Decidira-se a escrever um livro sem saber ao certo o que poderia ser. Não sobre a sua vida, porque nada haveria vivido que merecesse ficar como memória, nem a vida alheia de que fora acidental testemunha poris o decoro o vinculava à reserva. 
Talvez um livro de ideias se não fosse o tímido receio de estarem tão esgotadas quanto inúteis num mundo que subsistia de coisas práticas.
O seu pequeno mundo confinara-se, afinal, a insignificâncias: não havia jornais comuns que lesse ou revistas selectivas de que fosse assinante.  Um dia dera consigo a folhear demoradamente ícones de uma religião cuja doutrina lhe não interessava, mas de que a púrpura das imagens o fascinava como um incandescente Sol, mais a rigidez eternizada das imagens, figuras em ritual sem genuflexão, sob um céu abobadado cintilante mas puramente astral sem grandeza de última divina morada mas tecto de humanos recolhidos à contemplação de si
Naquele dia iniciara umas poucas folhas desse livro. Rasgadas, já não houve outra que se lhes seguissem. 
Incapaz de tornar a primeira linha do seu escrito centrada com a quadrícula do papel, sentiu-lhe na irregularidade o pressentimento da impossibilidade. O raspar do aparo ouvia-o com a dor se a alma se lhe rasgar em fissura pela qual o corpo se lhe escapasse.
A um tremor de mãos somara-se a insídia de magoar e tanto o pulso, rígida a caneta, enclavinhada entre os dedos e já sem jeito, há tanto tempo que não a tomava para que do coração esvaísse um sentimento, do cérebro uma forma de pensar.
Decidira-se em tempos a escrever, rasgadas estavam, porém, as folhas, ao escurecer dos olhos, a noite a apiedar-se de si, através da sonolência e do cansaço, da memória não ficar traço que o demonstrasse..

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Fonte da imagem: quadro de Leonid Pasternak, aqui

A paz tranquila


Tremendo, zumbindo como praga, refulgente, mau, o calor. Refugio-me desde há semanas na pequena casa que foi estufa, metade dela com esconsa cave onde o fresco se retém, a semi-obscuridade torna a luminosidade macia e dói menos, sobretudo, o espectro da ausência. Onde nenhum som chega, murmúrios apenas, como se todo o real fosse abstracto e longínquo. Onde tudo se conservou como um museu que fosse da casa a memória do seu requinte. E de que fiz habitação.
Houve tempos em que, desenhava letra a letra cada uma das letras do abecedário, em cadernos de duas linhas, fazendo a mão afeiçoar-se para que as lançasse, direitas em lanço oblíquo, atenção à perna do jota e à haste do agá, que os dois érres de não confundissem. E temia a cada falha. E aquela fila sem nexo de símbolos que nem palavras formavam queriam então dizer nada. Mas olhando-os, sentia o orgulho contido da beleza caligráfica como se de mim a paz tranquila. E ensinei ali o mesmo, ocupando os tempos de férias a quem não as teria, a fazer assim.
Hoje, sentado à velha secretária, cujo tampo já foi pele e hoje a magoam rasgados dela e vincos de malvadez descuidada, verde e desbotada, tento, papel macio que encontrei, esquecido em uma das gavetas, escrever que seja o quê nem sei como.
Apenas o silêncio e o calor. O refúgio do lugar. Este Verão com instintos de sangue. 
Nenhuma memória justifica porque há tantas e são inúteis, nenhuma ficção por estar tudo inventado quando daria outra vida ao que se viver. De nenhum sentimento seria capaz de captar a forma de o escrever. A tarde vai lenta, escorrendo, e é Domingo.

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Acetinado, o leito


Deverei, reconduzindo-me a quanto fui, ocupar amanhã o quartinho que era o meu, o telhado como céu, livros a afagarem-me como presença, deixando vazios os salões, ausentes que estão definitivamente agora aqueles que lhes talharam o estilo e os povoaram da sua presença legítima e a de seus convivas?
Amputar-me-ei do direito a estar, agora só, da liberdade de me expandir, a possibilidade de tudo modificar, alienar, substituir, destruir mesmo, afeiçoando a casa ao que possa ser?
Mas quem sou eu, aquele ao qual, anos volvidos de acanhamento, subtraíram da personalidade a característica?
Ter sido aquilo que me coube ser nesta casa, confinado em espaço, contido nos gestos, parco nas expressões, ter afundado no denso interior do recato o sentimento, gerou, é certo, a afeição, aquilo que simula familiaridade, longínqua embora, mas ressequiu também, como se a de um estranho pudesse ser, a individualidade, a possibilidade de viver, ilimitadas, as sensações.
A máscara em que me tornei identifica-me com as paredes desta casa e seu papel desbotado, tornando-me com o decorrer do tempo, invisível como os seus móveis e deles em nada destoante.
Imponente, o leito possível ruboriza-me de pudor. Suponho, difusa memória, que foi por todo o tempo tálamo conjugal daqueles que servi, educando-lhes os filhos, mas imagino, vincada fantasia esta, que de Madame as formas e o odor terão aqui ficado, como lençol acetinado ainda morno, cujo suave roçagar me não será consentido.
Sei que o tempo destrói, desfeia, gera no presente o horror. Não, porém, o que o corpo sente quando os olhos se recusam a ver e o mundo se torna hoje a ânsia do desejo antigo por honrar.

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A aparência do lugar


Anos volveram. Regressei ao lugar ou, porventura melhor dizendo, ao local. O espírito que o habitava, a alma que coexistiria com o que julgamos apenas corpóreo, tinha-se ausentado. Um hálito a desolação, bolor de arrecadação há muito esquecida, povoava esta casa.
Outrora fora aqui, na aparência das coisas, preceptor de meninos, tentando aprender para ensinar o que já me tinha esquecido. Hoje, desfeita a família que a habitava, cabia-me na velha casa a oportunidade de a supor minha. Onde estariam hoje todos, deixara de ter importância. Sobrevivera-lhes, sem razão.
Incertos os passos, senhor agora de espaços que haviam estado sonegados à minha liberdade, afinal então apenas serviçal, hesitante no deambular, não tinha, ainda, do domínio a pose. 
Sentia-me intruso no que agora passara a ser meu.
Há na posse a necessidade do ânimo. E eu sentia-me como um precário detentor. Não me atrevera , por isso, ainda a sentar-me. 
Chegara há pouco. O jardineiro guardara a chave e olhava-me agora com a incerteza quanto ao gesto seguinte a ter-me aberto a pesada porta de entrada. No fundo conhecera-me vindo eu um pouco acima do nada, aquela zona incerta do muito pouco. Não é fácil soerguermo-nos em importância.
O silêncio, como uma fina poalha, tornava opresso o ambiente. A depredação fizera estragos ofensivos. 
«Talvez abrindo as janelas ou ao menos os reposteiros», balbuciei, pedindo, por não saber ainda como determinar. 
Dar ordens era ainda um hábito estranho. Teria de regressar, voltando sobre os próprios passos, ao que poderia ter sido.

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O sonâmbulo


Tempo de encerrar este lugar. Sucede quando não há mais para dizer, quando não nos revemos já na personagem a que demos voz, quando, vazia de sentido, esta se torna incompreensível de significado. Durante meses fui a alma desta criatura, ficcionando-lhe uma vida, sonambulismo literário para um acordar, afinal, prosaico.
Cada leitor conseguirá por si reconstruir o que seja. A ser assim, será isso o mérito do que ficou.

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O jogo da adivinhação


Viaja-se para longe daqui para se alcançar o mar e na praia deste, como entre gaivotas, um recanto, e dentro dele um espaço onde chegue a sombra artificial de um chapéu de sol.
São quilómetros asfaltados de luz refractada a incendiar o vidro do indolente automóvel, insectos a nele esmagarem-se, liquefazendo-se numa escorrente massa larvar, o frio gélido soprado nas narinas de um ar condicionado que trás a sensação provisória de conforto até que a porta se abra e se conclua ser ali o destino, o interminável caminho.
É depois o episódio das malas e sacos, o arrumar o que se empacotara e, enfim, à sensação da roupa ligeira iniciar-se a contagem decrescente para os dias pré-definidos de veraneio social.
Esta noite, surtiu, inesperado, um jantar com um casal que já se conhecia e ali se reencontra, como nos anos transactos, anulando a diferença do mudar de vida por uma época, a balnear.
Madame discute que toilette será para que não pareça, que restaurante terá de ser para dar uma certa ideia.
Garantido que os jovens filhos não vão, escapulindo-se para o mundo residual do tudo menos isto, resta a placidez do Senhor Engenheiro, predilecto Esposo, fácil de contentar ante o seu desinteresse que nele é máscara de desencanto.
Como soube disto, eu que não fui? Pelo fácil jogo da adivinhação, a ilação retirada do que se conhece, que o sonho trouxe, abertas as portas da solidão, a velha casa desalojada.
Vagueio agora pelos salões entregues a si mesmos e a umas sobejantes moscas a que a obscuridade, portadas semicerradas, dá asilo e campo de aviação. 
Incerto, tento ler sem convicção um pesadíssimo livro que mal consigo desfolhar, não passando das primeiras folhas, e adormeço com empenhamento. 
Acordo, enfim, entre pernas dormentes porque alçadas no sofá, a cabeça a estalar porque em suspensão na incómoda posição. 
E o suor, viscosidade humana, a marcar presença, irritante na sua miséria de trivialidade.
Ignoro que horas sejam, brilhando ainda no exterior a ameaça da canícula.

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A primeira linha


Passou Junho sem uma palavra aqui. E, assim, visto por quem o pudesse ler, o mundo que me é dado viver é como se não existisse. E, no entanto, afogou-me entre o que tive de fazer por obrigação e contra vontade e o que ficou por fazer sem que o querer nisso pudesse ter interferido.
Qual ante uma língua morta aprendida sem utilidade e esquecida por força das coisas práticas que trazem à tona da lembrança apenas os conhecimentos necessários, fui-me esquecendo do muito que planeara até encontrar a velha caixa de madeira doce onde outrora, estimados a graxa e por dentro enchumaçados a papel para que não se deformassem, guardava nem sei já para que propósitos uns velhos sapatos ridículos de brilhantes porque de verniz. Estava agora, perdido o seu conteúdo em qualquer tempo ido de libertação de passado inútil, abarrotada de papéis dispersos, notas e começos de escrita, como se arranques do espasmo que é, na síncope, tentar sobreviver pela já breve mas canina respiração.
Passei o mês a organizá-los em vão. Na sua incompletude está definitivamente perdida a ideia que lhes deu origem, esgotado o tempo que permitiria reatá-los.
Nasceu aí, porém, a noção de que só recomeçando sem continuar, tal quando se inicia o longo caminho sem olhar para trás pela vergonha do que se errou, tudo poderia ganhar sentido e possibilidade.
Dou comigo agora a escrever, papel a preencher-se por uma caligrafia que se tornou incerta mas com a limpidez de ser, do acto primordial, a primeira linha. Será livro de contos, sabendo que não se lêem contos e por isso mesmo precisamente. 
A ideia da eternidade a escrevê-lo, corroído o tempo mesmo pela velhice do próprio tempo, surgiu, como a frescura de uma brisa, janela que se abrisse, fugaz sentir de um ser angélico que fosse na alma o seu momentâneo pulsar e a vida fosse, palavra a palavra o Verbo a escrever-se.

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O silêncio dos corpos


Maio: flores, chuva, Primavera errante e Inverno que ameaça não nos deixar. Incerto, entre o que fazer e o nada feito, desço, sorrateiro, indeciso, a íngreme escada e outra ainda. Passo pelo escritório, de porta entreaberta e luz coada por pesados reposteiros e mal pressinto o murmúrio do silêncio. Chega-me então, convidativo, da cozinha, o odor aliciante de café. 
Volto sobre os próprios passos e franqueio o limite que separa os senhores da criadagem. 
Sentada, ainda entre o por vestir e o desarranjo da cama, via-a então, como se pela primeira vez, feminina.
Hirta porque serviçal, quando de avental de folhos e crista na cabeça, servia à mesa, na dança ritual do jantar, não se descortinaria nela uma pessoa, quanto mais a mulher. 
Hoje, ali, neste começo preguiçoso de manhã, talvez a alvura do ombro ou a melancolia do olhar lhe hajam restituído a senhoria de que abdicava, trazendo-lhe, intacta, a liberdade de ser e sobretudo a de estar.
Durou tudo apenas o tempo que prolonguei, silencioso, evitando que os nossos olhos, que reciprocamente nos percorriam, no gozar mútuo da adivinhação dos corpos, se cruzassem. 
Se o amor se desse em goles de carinho, ter-me-ia entregue num abraço, adoçando o café daquela manhã, onde o Sol despontava, enfim.
Ao pressenti-lo, ergueu-se rápida, recompondo o semblante e a pose. O laconismo feito austeridade tornou-se frase: «eu sei», disse, em aparente despropósito, como se me tivesse adivinhado o pensamento e me respondesse na forma de um «por favor, não!».

Hirto e acorrentado


Sem razão, mas por muitos motivos, este diário descontinuou. É o destino dos que decidem confiar ao papel as suas vivências. As memórias mais verdadeiras são as nunca escritas. Tudo o mais é ficção e excertos de recordação, mesmo quando a do próprio dia. É que há o pudor e a glória.
A vida aqui ganhou novo ciclo com a chegada da Primavera. 
Madame avolumou-se de atrevimento indumentário, expondo, carnuda, as inconveniências, quando propositadamente aparenta descuido, saciando-se, matreira, da ociosidade cansativa em exuberante descanso. 
O Senhor seu Esposo, nos intervalos do indefinido de que faz emprego, dormita no florido varandim, quando faz Sol, ou boceja interioridades rancorosas, sentado num canto do escritório, folheando revistas que não lê, com ilustrações de desinteresse.
Com a passagem do tempo a minha função aqui perdeu-se não só quanto ao fundamento como mesmo no que à função respeita. Pergunto-me porque me pagam ainda ordenado e dou comigo a desempenhar pequenas tarefas, medíocres mesmo na sua vulgaridade, até as que invento para justificar serviço.
Hoje dei comigo a imaginar substituir o canteiro de begónias, ontem a restaurar um velho relógio em que o tempo se imobilizou no mecanismo. Foi então, ao debruçar-me por uma minúscula peça daquele sistema de rodas que se dentavam, mordiscando-se, naquele hirto relógio vertical de pêndulos acorrentados, que surpreendi a Madame o trilhar dos lábios o inferior com a alva dentição, tubarão rodeando quase a esvaída presa.
Creio que na atrapalhação do instante me saiu da boca nem sei que frase, a que trouxe ao rosto da palidez a sanguínea cor, comprometedora. Num ápice estava aqui, refugiado e exaurido, ansioso por descer, receoso ante o fazê-lo.

Breves, os circunstantes


O ano começara e, constato agora, eu não viera aqui, a este caderno, escrever uma linha sequer. E, ao notá-lo, pesa-me o vazio do espaço em branco, como o daquelas salas da minha infância, recheadas de coisas que me eram vedadas, fechadas à chave, numa solenidade secreta, propensas ao sonho e à adivinhação.
Faziam parte do ritual antigo, locais onde apenas se ia cerimoniosamente, como a sala de jantar e seus cristais ou a sala de visitas carregada de "bibelots".
Tudo o mais, nesse quotidiano tornado vida, era passado nos locais domésticos. Da infância ficou a mesa de cozinha e seu calor morno e aconchegante, as refeições que ali se tomavam em silêncio e o meu quarto, domínio da solidão privativa e sua pequeníssima janela sobre um horizonte inacessível. Tudo o mais é hoje recôndito e longínquo, como uma frase por recordar e de que se perdeu o significado.
Nos dias de grandes limpezas essas pesadas portas dos proibidos salões, que encerravam os lugares míticos do inacessível, entreabriam-se, para logo o trinco as encerrar enquanto decorriam, minuciosos, trabalhos domésticos, entre passos abafados e murmúrios de vozes. 
Creio que nunca terei chegado verdadeiramente a atrever-me a ali entrar sem porquê.
Das pouquíssimas vezes que alguém nos visitou, fui chamado por uns breves instantes a uma delas, onde havia sofás de couro e livros numa estante, as portas envidraçadas e uns quadros antigos com cavalos tristes na sua eterna imobilidade. Bebia-se chá e ofereceram-me uma fatia de um solo seco, que polidamente recusei, como me tinham ensinado a fazer, para aceitar depois, após aguardar a insistência e a aprovação para que o fizesse. 
Foram breves esses circunstantes desconhecidos na sua formalidade feita simpatia por uns momentos que me dedicaram: como me chamavam e como iam estudos. Balbuciei respostas como a quem me não quisesse, o ritual da polidez. E pedi licença para poder sair.
Depois chegava o Natal. Tudo era então luz e encantamento no jardim maravilhoso das loiças que circulavam para que nos alegrássemos ao comer com o requinte tornado luxo e a vida parecesse contente.
«Tem cuidado não partas nada», advertiram-me, solenes, quando me sentei ante aquelas fragilidades em que nos serviam o jantar. «Nem te sujes, como de costume», acrescentaram. 
Hoje sonhei isso mesmo, e vim aqui encontrando a página em branco.

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A falsa alegria de estar


A passagem do ano neste velho casarão faz-se ante o facto de eu não fazer a mínima ideia como é. Calculo que haja um jantar, ante os recônditos ditos, sussurados, que, como um sigilo, trocam entre si, fico com a ideia de não criarem esperanças de que eu possa fazer parte.
Nunca cheguei a apurar se terão convidados. Ou como decorarão a casa.
Faz parte do ritual da época eu deixá-los por ser a da Família. A família deles.
Escrevo de onde não vem ao caso, imaginando-os numa fantasia macia que me restitui o consolo da ausência. 
A este hora estarão em festa. Creio que será mais ao menos o mesmo de sempre mais o fazerem de conta que não me incomoda não estar. 
Madame, por certo, sentirá a vaga liberdade de uma cabeça enevoada pelo champanhe, o Senhor Engenheiro, seu oficial esposo, o peso de mais um ano que passa e o de outro de que se viu livre.
Quanto aos filhos, aqueles por causa dos quais penso, já sem convicção, me contrataram para ali, irão com amigos ou a pretexto deles.
E assim sucessivamente será mais a dúvida agora sobre se este não será o meu último ano naquele local, como se de costas voltas à falsa alegria de estar.

A dormência da razão


Acordara pela noite pela inesperada razão que leva a interromper o sono não integralmente dormido como aquelas vidas que o acaso interrompe igualmente sem motivo. 
Na escuridão da noite hesita-se sempre em restituir-nos a luz talvez para que as ideias, assim, nos pareçam mais lúcidas. E estava confuso. 
A missão ali em mais do que emprego. Contratado como perceptor, agora inútil para quem não queria aprender, fora afinal ficando. Talvez fosse já caridade que os fazia manter-me naquela forma dúbida de me ocuparem o tempo, ou a inércia, como a que nos faz conservar coisas esquecidas, eternamente sem lhes dar destino, ou as vidas por arrumar que todas as vidas toleram que é uma forma de as consentirem.
As ocupações residuais tinham-se tornado o meu pequeno mundo. Quando amanhecesse, desceria à Biblioteca ou esconder-me-ia no fundo do jardim, entre o Sol, se ele surgisse, ou o recolhimento onde o frio me não tolhesse. Leria então, esperava eventualmente que o momento trouxesse desejo de escrever. Ao final da manhã regressava a casa, evitando ser visto. 
E pensei: agora os seus dois alunos, reduziam-no ao papel de ocasional explicador. As dúvidas eram poucas porque o estudo era escasso. Um mundo enigmático formara-se entre o destino daqueles jovens e a sua pessoa. Que poderia já eu fazer que alterasse da insensatez o curso? 
Talvez se fosse um pai pudesse, pela autoridade ou pelo exemplo, marcar um rumo, encontrar-lhes no caminho o atalho. 
Os primeiros sinais de aurora chegaram-lhe àquela reclusa mansarda, como um sinal de esperança. Recolheu-se, afundando-se na dormência do cansaço. 
Talvez o dia não valesse a pena, ou porventura precisasse de um corpo forte e rejuvenescido para enfrentar do mundo a adversidade. Talvez pensando-os como filhos, pudesse viver por eles a possibilidade de que tudo fosse uma outra coisa que não aquele pequeno mundo a arruinar-se. Rabiscariam na parede garatujas insensatas e do riso fariam uma forma de contentamento.

O perpétuo surgir


Talvez eu pudesse ter sido qualquer outra coisa de ordenado e coerente, seguindo a vida linearmente, acumulando experiência e energia, multiplicando memórias de bem-estar, dando-me benefícios de gozo e instantes meus de luxúria ainda que não do corpo.
Mas foi tudo errático, ocasional, disperso, ditado pelo acaso, perdendo por vezes mais do que ganhava e, sobretudo, sem ter aprendido a calcular. Esquecer foi método e meio para o contentamento e sobretudo para o conformismo.
O auto-didactismo não deu sequer em erudição. Por isso à mesa, nesta família de acolhimento em que me oficializo como preceptor, sendo na verdade quase um adoptado, opto  pelo mutismo e pelo saber ouvir. Faço do silêncio dignidade.
Ontem à noite tiveram como convidado para o jantar um viajante, daqueles cuja fortuna permite estar sem que o tempo ou a realidade o aflijam. Falou incansavelmente sobre lugares de magnífica invulgaridade, como se neles o tempo tivesse parado confinando uma breve horda de habitantes de língua excepcional e vida indecifrável. Ignoravam o que era Domingo e com ele a tristeza vaga como a sentimos nas cidades. Nem Sábado tinham propriamente ou outro dia, porque em cada um festejavam da Luz o surgir perpétuo, como se orassem ao milagre do ressurgimento.

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Alados seres, medonhos!


Medonhas, tremendas, esvoaçantes seres rastejantes, frequentadores do pestilento e do putrefacto e da minha pele, disseminadores de contágios e alergias. 
Raiva aos meus ouvidos, ódio ao alcance das minha mãos, catarse do meu ser homicida, praga do Egipto, maldição de todos os faraós.
Sois vós, moscas, a demonstração de haver Estio e com ele suor e comichão de pele irritada e aquela sede que vem como lábios gretados e corpos por banhar.
Moscas, moscardos, mosquitos, alados seres, noites de insónia e de pavor, tarde de algazarra de zumbidos, ódio, fúria de vomitado asco.

Uma forma de dizer que sim


Não era propriamente a ideia mas sim a sensação, aquele conglomerado de sons e de cheiros e de flagrantes luminosidades, estridências e os areais desérticos, que me davam da praia a noção do horror até à hora de entardecer. 
Ardências cutâneas que incluindo a alma me tornavam o ser numa erupção virulenta e a sede que, como um nó, me esganava a garganta; e mais do que tudo isso, sobretudo, a imobilidade do tempo, estático naquele espaço confinado. E as hordas de vagos passeantes, sem nexo ou tino, por entre os corpos semeados, num ir e vir como o marulhar do gélido mar. 
Inferno de assador, churrasco humano, ódio contido ao que conservava das formas a perfeição primordial, debatia-me, sem lá ter ido, ante o estalar da cabeça, dardejada pelo Sol, e a areia insidiosa, intersticial, renitente entre as unhas dos pés.
Hoje fui. Regresso do extenso areal a dizer que sim, que é uma forma de voltar ao céu azul e à purificação marítima. Banhei-me na realidade e bronzeei-me com a experiência.