A hora de recolher

O cansaço invade e com ele o abatimento como um entardecer. São dias seguidos em que poderia sair ao findar a tarde, antes de recolher, ou depois de entrada a noite, um pouco para além da curva da estrada, uns poucos quilómetros, e encontrar-me em torno de um copo para esvaziar-me, bebendo, num bar local, escassos os circunstantes, silenciosos, dois num canto num inconcluso jogo de dominó.
Mas vivo aqui, entre livros que vão ficando por terminar porque assim se perpetua a incompletude e com ela a vida parece eternizar-se.
O cansaço invade-me a pequena habitação e escorre pelas paredes. Por vezes já não há posição possível para o corpo, doem as horas e ao chegar da alvorada surge, enfim, inconveniente, a vontade de dormir.
É então a hora de florir a vida, como agora a da sua sonolência. Hesito entre dois livros, determinado a não me deixar vencer pelo desejo de sair. Não tanto pelo franquear a porta mas pelo esgotante esforço que seria tornar-me a vestir, casualmente que fosse, fazendo-me, taciturno, ao caminho.Como se encontrasse a casa vazia, abandonada, da existência inútil, do esforço gasto em vão e com ela os remorsos pelo que não fui.