O horror ao vazio

Cheguei de uma viagem de uns dias a perguntar-me se estranhariam a ausência. Não que o trabalho não tivesse ficado destinado ou o que se adiou sofresse com isso prejuízo. Há nisso em mim uma meticulosidade estudada que me poupa aos dissabores das falhas.
A questão é haver em cada um a ideia de que o vazio ocupa lugar no horror de todos os outros à nossa falta.
Mas foi o «ah! é você», vindo da porta entreaberta da saleta privada de Madame, que fez as honras de recepção. Como se a intruso ou ao incómodo do inesperado. E o breve embaraço, contrito.
«Falamos depois», acrescentou como se a prometer, em compensação por silêncio a que assim me obrigasse.
Hesito, agora que escrevo, recolhido ao quarto, a mala aberta ainda por arrumar, se, ao recolher-se, teria composto da indumentária alguma ousadia que eu não devesse ter prescrutado, ademais atenta a minha condição.
São estes os momentos em que o desejo se transforma em ilusão e assim nasce a fantasia.
Tivesse coragem e desceria a escada, ao alcance do que se ouvisse da escada, ou bateria inconvenientemente à porta, surpreendo-lhe o corpo e a companhia. 
Assim resta-me imaginar uns passos que desçam, assim tudo sossegue, cautelosos na rapidez discreta e o ranger inevitável da porta a recolher-se. A da rua essa, pesada, como a respeitabilidade aparente de tudo isto, ecoaria, pesada, e com fragor, anunciando do acto o facto.
Daí a das traseiras, lateral, quase inutilizada, possivelmente.

A palidez da luz

 
O frio, seguramente o frio de Outono, gelar lento que nasce do interior da existência e vai abraçando o arrefecimento da Natureza, a rigidez dos corpos, a quietude.
Os passos em volta tornam-se sopesados, esconsos.
No piso inferior um mundo abafado permite ouvir o tic-tac do velho relógio, as horas a arrastarem-se. São dias breves, em que se vive pela noite extensamente, sob a luz quebrada de um candeeiro, amarelecida a própria vontade da escrita.
Ao longe um formigar de automóveis pela estrada, regressando, apressados, para longe.
Desço, silencioso, e abeiro-me da porta o suficiente para não sair. Sem abrir sequer o guarda-chuva, aquém, pois, da intenção.
Talvez envelhecer seja isto precisamente, o mundo desinteressar-se e toda a luminosidade tornar-se doridamente pálida.