O espanto da inocência


As segundas-feiras antecipam-se sempre ao Domingo, que são dias de monotonia enervada, de fantasia sobre o que virá.
Poderia ter feito o passeio a pé pelo bosque que enfrenta a casa, acentuando-se em declive até ao rio, não fosse o receio de que poderia chover, estando sol. Ou poderia acabar os livros eternamente por ler, não fora haver outros que gostaria de iniciar.
Com o aproximar do primeiro dia útil da semana outrora sobrevinha a má consciência dos deveres incumpridos, os receios dos efeitos do que tinha sido devido. Hoje é o mesmo pela forma negativa, o ter-se tornado esse mundo de obrigações uma névoa moral já quase esquecida e ter passado o tempo em que poderia reclamar comigo antes que os outros dessem conta.
Ter-me tornado vagamente mais secretário nesta casa em decadência real e menos o perceptor para que me  em arrogância simulada contrataram deu nisto precisamente: não há nada que especificamente eu deva, e tudo genericamente me pode ser exigido.
Da indefinição nasce o meu desdém por eles e o desprezo de Madame para comigo, ao sentir-me uma possibilidade inutilizada.
O «senhor Engenheiro», como passei a tratá-lo, como se título fosse nome e mais não existisse, ontem à noite, fazendo apelo à linguagem razoável em que se formou disse-me que eu «tinha um potencial por descobrir». «Apesar da idade», acrescentei para lhe dar a oportunidade de fugir àquela proximidade.
Repontão, o rapaz que nesta casa me parece ser o sempre provisório filho e meu aluno eventual ajudou-me: «A ousadia não tem tempo, só o atrevimento».
Espantei-me com a revelação. E, sobretudo, com o que ela permitia adivinhar. A inocência é a possibilidade de a salvar.