As vísceras da existência

Nunca entendi em rigor a relação de parentesco, sei que vivia não muito longe daqui. Visitavam-no pouco e julgo que o mesmo raramente se dava ao exterior. Vi-o uma vez nesta casa, ao jantar. Por essa altura teria eu já direito a sentar-me à mesa em certas refeições, o que geralmente declinava, entre o pudor e o respeito, preferindo ficar pelo meu quarto, agora acrescentado por uma saleta, onde haviam colocado, por gentileza, uma pequena mesa e duas cadeiras, uma delas inútil.
Ontem souberam que tinha morrido e a notícia do facto povoou a casa, como uma sombra de entardecer. Tentei evitá-la por pressentir sentimentos que surgiriam, imparáveis: uma vaga condolência como pano de fundo, ténue como o último instante do crepúsculo. Sobretudo o silêncio a prenunciar o flagrante do rompante adversativo, o horror do «mas» que é o chiar da antíquissima porta do mal dizer.
Sei que os mortos pesam pelo respeito nascido do medo, sei que os vivos os detestam pelo mesmo medo, sabendo que eles apenas os antecipam. É isso que torna os velórios em Carnaval. Aqui, porque o peso secular desta casa se impõe, foi tudo mais manso. Ninguém se atreveu propriamente a denegri-lo. Ficaram-se pelas alusões inacabadas, entre os factos e as opiniões que, partindo-lhe, primeiro, a ossada da moralidade, lhe dilaceraram, enfim, as vísceras da existência.
Amanhã, pela hora de ter passado mais um dia para os que ficaram, terão lançado os seus sobejos aos cães do esquecimento, estraçalhado. A vida renascerá.