A carta

Quase nunca falo daquilo que integra o essencial da minha função aqui, ou melhor do pretexto que serviu de base a terem-me contratado, o de perceptor dos meninos. É que paulatinamente passei a ocupar-me de trabalhos diversos, como cuidar da extensa biblioteca da casa, ser uma espécie de secretário da vaga vida do senhor engenheiro e algo de indefinido em relação às minudências de Madame. 
Talvez como defesa ante qualquer excessiva proximidade trato-a como «minha senhora» e passei a designá-lo como «o meu senhor». À vaidade contida de ambos não desagradará esta forma de dizer e talvez o tranquilize mesmo embora uma só e suficiente vez se afrontou o limite denotativo das palavras quando Madame, a pose de desafio, fitando-me como se me trespassasse o pudor, sublinhou o eu não sou «a sua» senhora.
Ontem estive a arrumar a dispersa correspondência, organizando em grupos a respondida e a por responder. Para me orientar tinha de perguntar se esta missiva ou aquela outra tinha encontrado réplica. Uma a uma. Foi então que ela surgiu. A caligrafia cuidada, o envelope manuscrito, logo a abertura a revelar intimidade. O encorpado do papel dava o toque de distinção, a identificação do lugar como «Casa de» o requinte.
«É uma carta para minha mulher», disse-me, evitando cruzar-me o olhar, como se absorto por um livro que folheava. «Vamos criar um novo conjunto, o das cartas que não sabemos se alguma vez tiveram resposta», acrescentou, entardecendo em tristeza, o dia a terminar. «A vida se encarregará de esclarecer», finou-se num murmúrio.