O clarão contido


Tenho vindo a este caderno uma vez por mês. Não sei porquê tão pouco. Também não sei se haveria mais. No fundo, cada vez é idêntica à anterior. A diferença hoje, último dia do mês, é aparente. Faz lá fora um calor de ralos, suores e estridências cruéis, tarde de endoidecer. Na penumbra da mansarda, as gelosias estalam, inchada a madeira a não se conter dentro do seu próprio corpo. São insectos em tabuínhas, a salvaguardar-me do exterior, tolerável quando, gelada, a calçada empedrada conduz os passos em dias como os que são Domingo. 
Espero, paciente, que anoiteça ou adormeça. Os ruídos domésticos cessaram, como se todos tivessem ido. Há um vago zumbir, um clarão contido pelos interstícios. 
Procuro com os pés o sorriso fresco que subsista nos lençóis. 
Talvez sentado pudesse ler ou evitar adormecer. Mas para quê, se o desejo de sono se torna carícia e o dormir possibilidade de uma viagem a um horizonte obscuro que é o local da ilusão. Entre a vigília e a sonolência volto aqui, sonâmbulo quase, do resto adormecido. 
Cumprido está o dever mensal da presença.