O contra-tempo

Começaria cedo o meu dia de trabalho, não fora um contra-tempo. Chovia, inesperadamente, uma chuva vingativa, a ensopar a terra, tornando-a lamacenta, a fustigar as árvores, partindo-lhes os ramos, puxada a vento, oblíqua, uma chuva perante a qual o homem fica indefeso, sobretudo o homem que a enfrentaria com um guarda-chuva, e eu certamente assim o faria. 
Tinha planeado que começaríamos com um passeio pelo campo. No caso o campo seria a longa extensão nas traseiras da casa, que conduz à linha de água para onde agora a chuva escorre, revoltada e enfurecida, enovelando-se com o aluvião que levava em torvelinho.
Tenho agora diante de mim o que serão os meus alunos. Ele, a meio caminho da adolescência, figura hirta como se em cada gesto seu houvesse uma continência militar, rígido na roupa, tal os que temem uma ruga na camisa ou o descair do nó da gravata e usava disso mesmo, ridiculamente antecipado para a sua idade. «Talvez pudéssemos começar então pela biblioteca», arrisquei, não a tendo visitado ainda sequer para me inteirar do seu conteúdo, pelo que não saberia que livros nem a que propósito.
Foi então que Madame surgiue inesperada, imensa: o dia ia ser totalmente diferente. A menina tinha, afinal, prova na modista. E que da próxima vez eu a inteirasse dos horários das minhas aulas. 
Ser doméstico, e nisso me tinha tornado, resignei-me, disciplinado, sem uma palavra de réplica. 
A garota olhou-me, então, o olhar desafiante,  como se por um instante fosse a própria mãe na provocação da autoridade e mulher no provocante ao exercê-la.

A estranha ascendência

Falou, enfim, comigo. A sala que lhe servia de escritório tinha de imponente a livraria, o seu imenso pé direito, ou sonhei-a assim, restituído depois ao meu quartinho, onde escrevo estas notas. 
Nem sei do que falámos ou talvez nem tivéssemos de que falar, estando o assunto que ali nos levava já resolvido para ambos. 
Caber-me-ia tratar daqueles livros, organizando-os e eram milhares, e da educação de dois adolescentes. Não lhe perguntei se seriam filhos ou talvez netos, nem foi preciso dizer-me se da educação faria parte a instrução. 
Não tive o que posso chamar de coragem para lhe fitar o rosto atentamente, talvez por respeito para com a sua dignidade ou por pudor a que me obrigava ser o que ali representava. Retraído sob as lentes, os óculos davam aos olhos o recolhimento de um míope.
Penso-o como vi o Unamuno, numa fotografia que o tempo amareleceu, no refúgio dos seus papéis, e em ambos o mesmo sentido trágico do existir. 
Perguntei-me sem razão se seria médico. O acento no falar denotava uma qualquer ascendência estranha. Presumi que não se levantaria à minha entrada, mas estendeu-me a mão, indicando-me o lugar que me caberia, uma gunstock, incómoda como todas elas, das que se oferecem a quem queremos por pouco tempo sentados junto de nós.

A nudez e a contenção

Não faria seguramente parte da educação de um cavalheiro saber que um sapato formal é por definição de borzeguim e orelhas e nunca de pala: as partes superiores cozidas por baixo da gáspea, fechados por atacadores por cima de uma língua. Nem que com um par de broguers, um oxford e um monkstrap tem  tudo quanto precisa, desde que se inclua a calçadeira e a forma interior para que não deforme ou crie rugas. E que o excesso desvirtua, assim como a meia a três quartos evita o horror da nudez da perna, arregaçada que a calça esteja, imprudente. O enfeite na biqueira destoa logo, como um feminino colar de berloques em noite de cerimónia. Denotaria vulgaridade.
Naquela casa, porém, nada era deixado ao acaso, nem sapato havia sobre o qual não se perguntasse, na intimidade do cerimonial do trajo, se não era de cordovan, o contraforte reforçado, a alma ajustada à sobressola e sobretudo se era propositado.
Engraxados, aguardavam em disciplina silenciosa o seu momento. O acto de os usar era um caso pensado. O acaso não entrava na tradição, nem a originalidade. Nada era demasiado afirmativo, a ousadia conhecia como limite a contenção.

A promessa de contentamento

Foi o engenho humano a conseguir, desafiando a Natureza, equivaler em vidro o que nela é o puríssimo quartzo. Foi na Boémia no século dezoito que se deu a alquimia através do chumbo, antes que tudo se transformasse, a cópia hoje a tentar nivelar-se ao original, ao cristal inglês. 
Imponente, sobrepondo-se, majestoso, à simplicidade do lugar, o pesado "chandelier" olhava-me, incendiado de luz, os pingentes quais lágrimas dos tempos pelos quais passou aquela casa, refractando todas as cores existentes no arco-íris e o branco uno, de tudo resultante a pureza do símbolo perfeito. O clique do velho interruptor a tudo restituiu penumbra e intimidade. Apenas o abafado som vindo da saleta em frente, morna provocação à curiosidade, oferecia à sofreguidão de quem está sozinho a promessa de contentamento.

Um lugar comum

Amanhã haverá o primeiro jantar. Cerimonioso. Não faz parte do meu trabalho preocupar-me com isso. 
Terem contratado um perceptor é demasiado antiquado e tem a sua etiqueta. Talvez nem eu próprio julgasse isso possível. Mas a carta a que me responderam era clara. Escrita em bom papel, encorpado, manuscrita. Tratava-se mais do que instruir, educar, no sentido mais amplo que a palavra contivesse. 
Não sei se pode ensinar-se a senhoria. 
Pressenti na primeira conversa que Madame a confunde com a altivez. Talvez pelo modo como soergue o busto quando fala ou olha para além daquele para quem olha como se não o olhasse.
Amanhã chegarão aqueles cujas vidas me serão confiadas. Talvez sejam irmãos, um deles será rapaz e pressinto sem ter porquê que estarão pela adolescência. 
A ambiguidade tornou-se nesta casa uma forma de refinamento, perguntar uma falha de educação.
No meu íntimo talvez a ideia do jantar faça regurgitar em mim um sentimento indevido de rancor. Como se tudo lhes fosse imerecido, menos o acaso de lhes ter calhado a possibilidade desta vida. Ou talvez o fazer parte do estilo eu não ter lugar à mesa. É que há regras.