O caderno de notas


A porta semi-cerrada, calor residual no interior da pequena saleta, onde aguardava pela chegada do táxi que levaria ao comboio das seis. Supunha a casa vazia, todos ausentes. Não dei pelos passos nem pela presença se não quando a sua evidência me sobressaltou a distracção. Trazia na mão um livro, entreaberto. Pela hesitação parecia querer perguntar-me alguma coisa. Invectivei-a com a pergunta que imaginei esperaria, na forma de um «diga lá...». Por um instante pareceu querer desistir, explorando do tempo a duração sem uma palavra. «Nada», respondeu, porém. «Nada, mesmo». 
Antes de sair olhou-me como se a aumentar a distância em que me queria. Um toque de malícia brilhava-lhe, no entanto, o olhar, como se uns outros olhos antes dos olhos. «Foi só não ter percebido aqui uma frase».
Retirou-se. 
Tinha descoberto, ao vasculhar o meu quarto, o caderno das minhas notas, talvez lhe chamasse um diário antigo que interrompera. 
Ostensiva, evidenciou-o, elevando ao nível do altivo peito. O esgar trocista deu ao quadro o tom. «Depois pergunto. Um dia destes», ouviu-se-lhe, a perder-se na distância do longo corredor.
E saiu, sob os destroços do meu ridículo embaraço, imaginando-lhe da leitura a indecência.