O ver pelo sentir


Nos dias de chuva deixo-me ficar até tarde aninhado entre o calor da cama e o morno desejo da fantasia de poder levantar-me. Não ter de descer à cozinha para tratar do pequeno-almoço traz acrescidas vantagens, tudo o necessário concentrado neste vão onde faço lar, mais o livro caído a esmo, lido ao adormecer. O fumegante oloroso do chá dá ao ambiente um carinho doméstico, quase a convencer-me de que aquela é a minha casa. A velha lata de biscoitos, inglesa, olha-me, convidativa.
É o dia em que, alheio em casa alheia, me apercebo das intimidades que trespassam as paredes e nem os tectos defendem. A discussão de ontem, rude, despropositada no pretexto e ampliada no vociferar feito argumento, deu lugar, agora que a modorra convida à paz, preguiçosa e lânguida, a uns murmúrios suspirados em que se adivinha a silhueta dos corpos beijando-se. Depois é o silêncio antecedido do gorgolejar da água, comprometedora mesmo quando higiénica. Tudo conjugal e doméstico, irregular embora na frequência. A exaltação resta-lhes para o ódio, falta-lhes no amor.
Rancoroso pela solidão, sepulto-os, porém, vingativo, na repelente imagem do sepulcro do seu noivado serôdio, acordo qual bêbado ante o pesadelo de lhes imaginar da decadência o festim funerário da impossibilidade na hora do acto. 
Um sabor pastoso a noite mal dormida invade-me. Mais perto de mim, a criada de quartos expõe a provocante nudez sob o duche que lhe acicata as formas, ao que suponho tornando o ouvir em ver e tudo isto em sentir-me.