A falsa alegria de estar


A passagem do ano neste velho casarão faz-se ante o facto de eu não fazer a mínima ideia como é. Calculo que haja um jantar, ante os recônditos ditos, sussurados, que, como um sigilo, trocam entre si, fico com a ideia de não criarem esperanças de que eu possa fazer parte.
Nunca cheguei a apurar se terão convidados. Ou como decorarão a casa.
Faz parte do ritual da época eu deixá-los por ser a da Família. A família deles.
Escrevo de onde não vem ao caso, imaginando-os numa fantasia macia que me restitui o consolo da ausência. 
A este hora estarão em festa. Creio que será mais ao menos o mesmo de sempre mais o fazerem de conta que não me incomoda não estar. 
Madame, por certo, sentirá a vaga liberdade de uma cabeça enevoada pelo champanhe, o Senhor Engenheiro, seu oficial esposo, o peso de mais um ano que passa e o de outro de que se viu livre.
Quanto aos filhos, aqueles por causa dos quais penso, já sem convicção, me contrataram para ali, irão com amigos ou a pretexto deles.
E assim sucessivamente será mais a dúvida agora sobre se este não será o meu último ano naquele local, como se de costas voltas à falsa alegria de estar.