Acetinado, o leito


Deverei, reconduzindo-me a quanto fui, ocupar amanhã o quartinho que era o meu, o telhado como céu, livros a afagarem-me como presença, deixando vazios os salões, ausentes que estão definitivamente agora aqueles que lhes talharam o estilo e os povoaram da sua presença legítima e a de seus convivas?
Amputar-me-ei do direito a estar, agora só, da liberdade de me expandir, a possibilidade de tudo modificar, alienar, substituir, destruir mesmo, afeiçoando a casa ao que possa ser?
Mas quem sou eu, aquele ao qual, anos volvidos de acanhamento, subtraíram da personalidade a característica?
Ter sido aquilo que me coube ser nesta casa, confinado em espaço, contido nos gestos, parco nas expressões, ter afundado no denso interior do recato o sentimento, gerou, é certo, a afeição, aquilo que simula familiaridade, longínqua embora, mas ressequiu também, como se a de um estranho pudesse ser, a individualidade, a possibilidade de viver, ilimitadas, as sensações.
A máscara em que me tornei identifica-me com as paredes desta casa e seu papel desbotado, tornando-me com o decorrer do tempo, invisível como os seus móveis e deles em nada destoante.
Imponente, o leito possível ruboriza-me de pudor. Suponho, difusa memória, que foi por todo o tempo tálamo conjugal daqueles que servi, educando-lhes os filhos, mas imagino, vincada fantasia esta, que de Madame as formas e o odor terão aqui ficado, como lençol acetinado ainda morno, cujo suave roçagar me não será consentido.
Sei que o tempo destrói, desfeia, gera no presente o horror. Não, porém, o que o corpo sente quando os olhos se recusam a ver e o mundo se torna hoje a ânsia do desejo antigo por honrar.

+
Fonte da imagem: aqui

A aparência do lugar


Anos volveram. Regressei ao lugar ou, porventura melhor dizendo, ao local. O espírito que o habitava, a alma que coexistiria com o que julgamos apenas corpóreo, tinha-se ausentado. Um hálito a desolação, bolor de arrecadação há muito esquecida, povoava esta casa.
Outrora fora aqui, na aparência das coisas, preceptor de meninos, tentando aprender para ensinar o que já me tinha esquecido. Hoje, desfeita a família que a habitava, cabia-me na velha casa a oportunidade de a supor minha. Onde estariam hoje todos, deixara de ter importância. Sobrevivera-lhes, sem razão.
Incertos os passos, senhor agora de espaços que haviam estado sonegados à minha liberdade, afinal então apenas serviçal, hesitante no deambular, não tinha, ainda, do domínio a pose. 
Sentia-me intruso no que agora passara a ser meu.
Há na posse a necessidade do ânimo. E eu sentia-me como um precário detentor. Não me atrevera , por isso, ainda a sentar-me. 
Chegara há pouco. O jardineiro guardara a chave e olhava-me agora com a incerteza quanto ao gesto seguinte a ter-me aberto a pesada porta de entrada. No fundo conhecera-me vindo eu um pouco acima do nada, aquela zona incerta do muito pouco. Não é fácil soerguermo-nos em importância.
O silêncio, como uma fina poalha, tornava opresso o ambiente. A depredação fizera estragos ofensivos. 
«Talvez abrindo as janelas ou ao menos os reposteiros», balbuciei, pedindo, por não saber ainda como determinar. 
Dar ordens era ainda um hábito estranho. Teria de regressar, voltando sobre os próprios passos, ao que poderia ter sido.

+
Fonte da imagem: aqui