Um baile de inércia e seus requebros

Prisioneiro de um cubículo, todo o exterior é agora um enigma, todos os sons mundos possíveis. Não acreditando num espaço inabitado, talvez fantasiasse ambíguas presenças e delas receoso. O passar das horas nocturnas trazia-me a adivinhação como entretém. 
Como seriam aqueles de quem dependeria doravante o meu futuro, cujos caprichos seriam ordens, que tornariam anseios em ordens? Talvez como num bailado de inércia, a ociosidade os tivesse tornado a todos o vício de si mesmos. E por ele tivessem vendido escrúpulos. 
Um medo carnal crava-se como uma garra no dorso curvado, tantas horas sentado. A agonia da servidão torna-nos indefesos ante o mando, mais o desconhecido de não se saber quem mandará.

A incontinente sensação

Foi então que à presença do lugar se sobrepôs a existência de pessoas. Em rigor eu não sabia ainda quantas iria encontrar naquela casa, nem quem seriam ou como me receberiam. À excepção de uma velha criada que me abrira a porta, com a naturalidade hirta de quem cumprisse uma liturgia há muito ensaiada, como uma ladainha. Creio que me terá murmurado um nome de modo suficientemente inaudível para que tendo-o dito eu ficasse inferiorizado por não ter conseguido fixá-lo. Seria talvez a única malícia que lhe restava, esgotadas todas as manhas na arte da servidão. 
Recolhido agora ali e quase na incerteza de ela ter sido real, sem porquê, no entanto, uma sensação nítida de feminino povoa-me o interior como se expectante de algum gesto meu que faltasse ou iniciativa, a porta entreaberta mais o mundo a haver para além dela, logo que fechada, com o segredo de um sem ruído, murmúrios abafados e incontidos.

Um fio na engrenagem

Foi seguramente uma breve sonolência, ou um desmaio, um hiato de inconsciência como quando se vai desta vida para uma outra, intervalando. E sonhei, profundamente, sem cores e dizem que os cães sonham sem cores ou já me confundo nisso, mas sonhei, um sonho de rejeição do que poderia ter sido depois de ser o que fui, um fio numa extensa engrenagem, tecnicamente sorridente e de colarinho branco, suficientemente anónimo sem ser impessoal, sobretudo eficiente. 
Acordei e estava no mesmo lugar só que com a boca pastosa como de uma bebedeira nocturna e a cabeça doía. 
Quantos instantes tinham sido e de quantos se faz uma outra pessoa? Era noite já na rua e nas entranhas de mim uma lua subia, inundando-me de ânsias.

A informe substanciação

Sentado, enfim, no quarto, na borda da cama, os sapatos aligeirados, o casaco nas costas de uma cadeira, afeiçoo os olhos à luminosidade. Entardeceu, mas não quis ligar o candeeiro da mesa de cabeceira, nem o do tecto, como se esperasse do dia seguinte a revelação do lugar. 
Coada pela penumbra, refractada pela luz de um candeeiro cravado no ângulo exterior da casa, chegam-me as silhuetas dos móveis, como sombras chinesas.
Nenhuma forma tinha recorte definido, nenhum espaço era definitivamente próprio. Neste diluir das substâncias continha-se o primeiro passo da minha viagem: tinha chegado ali carregado de um ser a que chamava eu. De ora em diante, meticulosa e dedicadamente, seria a terceira pessoa, o outro, que uma campainha convocaria e o ritual das horas certas moldariam a existência.
Sem que desse conta tinha anoitecido definitivamente.

A ânsia do olhar

Não seria da pobreza, mas do mundo incerto, aquele de onde eu vinha por não ter querido sujeitar-me. Não era uma revolta, mas uma mansidão. Chegava em busca de paz. Mesmo a ideia de um lar alheio que me recebesse era mais confortável do que uma casa de que fosse eu o sustentáculo e onde houvesse no umbral da porta uns olhos infantis ansiosos. O conforto dos outros não me doía como inveja, doía sim o desconforto dos meus como remorso. Um dia fiz-me à estrada. De vida em vida encontrei-me com o meu destino. Quando me entreabriam a porta sabia que era ali. Não havia mais mundos do que aquele pequeno mundo.

O mundo de cada acto pensado

A primeira imagem que guardo da chegada ao local é a do automóvel estacionado à porta. Silencioso, era a expressão de majestade austera do tom de quanto me seria dado viver. Talvez fossem tempos em que mesmo o que se produzia em série surgia como uma individualidade. O conceito de personalização não existia porque tudo era personalizado. O segredo era encontrar no idêntico a subtil diferença. Hoje a viatura é a mesma como se o tempo não tivesse passado. Usá-la foi sempre um acto pensado, como cada viagem, cada gesto. Tudo era uma forma de ser podendo haver o seu contrário. A liberdade total era essa mesma.

Um diário sobre a invulgaridade.

Iniciei a escrita deste diário. É um livro de notas do que vi, vivido na excepção e na invulgaridade. Um mundo fechado, a luz quebrada, a voz baixa, os sentimentos tranquilos. Tive o privilégio de o servir e a oportunidade de ter pressentido nele a distinção. O dia em que entrei nesta casa onde escrevo, chovia. No caminho desde a velha estação ferroviária, a mala pesando-me pelo que significava de futuro, perdi-me em pensamentos. Nenhum se viria a mostrar razoável. Sob o andar, o quebradiço das folhas de inverno de árvores centenárias olhavam-me familiares.