A Mãe

Quando se atrasam nos pagamentos, somem-se pelos cantos, entre o pudor e a vergonha. O ter pouco dinheiro faz parte da pedra de armas destas famílias, o ficar a dever irmana-os ao que mais odeiam, a classe média e seus calotes. É a frugalidade não a pelintrice o seu brasão. Por isso as refeições são sempre em casa, a roupa passa para os filhos mais novos. 
O envelope com o meu estipêndio deste mês tardou a vir. Mas é assunto em que não se fala. Há neste meio um código de conduta sobre o dinheiro feito de silêncio, forma superior de elegância, vulgaridade que não partilhariam com a criadagem. 
«Tenho uma transferência a fazer amanhã», disse, como quem, desajeitado a comer, deixa cair tímido, uma nódoa numa gravata. «Para a minha Mãe», acrescentei, sem querer magoar com a alusão, como um pedinte desculpando-se de o ser, apelando à compaixão, que é a forma dos humildes tentarem ter dignidade ma insuficiência. «E como está ela?», responderam-me, logo corrigindo o plebeu «ela», que se lhes escapara dos lábios tartamudos, «a senhora sua Mãe».

A embaraçosa intimidade

A doença é uma oportunidade quando não é uma dádiva. Permite o refúgio e justifica a ausência. E até a ociosidade. Isolei-me aqui sob o pretexto de que a ausência de febre poderia indiciar um mal maior e talvez a tosse doença que contagiasse. 
Depois são os cuidados domésticos mesmo a quem não tem linha directa que o torne deles beneficiário legítimo. Entraram-me há pouco sob a forma de uma canja e uma torrada. 
Sentou-se na borda da cama, defendida pelo meu estado enfraquecido que, acamado, franqueia uma intimidade de outro modo embaraçosa, o tabuleiro enfeitado com uma pequena flor.
«Espero que goste», disse-me, enrolando as mãos no avental, evitando o olhar, como se um segundo pensamento lhe desse outra intenção, a silhueta recortada como uma transparência provocante. 
Tentava orientar-me entre o equilíbrio precário do prato e o receio de me escaldar quando ela disse: «foi feita a pensar em si». «Acho-o tão magro», acrescentou, «logo no primeiro dia que entrou nesta casa. Tem de ter quem trate de si».
Foi aí que se iniciou o febrão que me consumiria a semana. Primeiro pela intenso olhar, logo pelo bater do coração. Descompassado, fibrilhante. Aprisionara-me a visão daquela presença e o desejo de a prolongar.