A paz tranquila


Tremendo, zumbindo como praga, refulgente, mau, o calor. Refugio-me desde há semanas na pequena casa que foi estufa, metade dela com esconsa cave onde o fresco se retém, a semi-obscuridade torna a luminosidade macia e dói menos, sobretudo, o espectro da ausência. Onde nenhum som chega, murmúrios apenas, como se todo o real fosse abstracto e longínquo. Onde tudo se conservou como um museu que fosse da casa a memória do seu requinte. E de que fiz habitação.
Houve tempos em que, desenhava letra a letra cada uma das letras do abecedário, em cadernos de duas linhas, fazendo a mão afeiçoar-se para que as lançasse, direitas em lanço oblíquo, atenção à perna do jota e à haste do agá, que os dois érres de não confundissem. E temia a cada falha. E aquela fila sem nexo de símbolos que nem palavras formavam queriam então dizer nada. Mas olhando-os, sentia o orgulho contido da beleza caligráfica como se de mim a paz tranquila. E ensinei ali o mesmo, ocupando os tempos de férias a quem não as teria, a fazer assim.
Hoje, sentado à velha secretária, cujo tampo já foi pele e hoje a magoam rasgados dela e vincos de malvadez descuidada, verde e desbotada, tento, papel macio que encontrei, esquecido em uma das gavetas, escrever que seja o quê nem sei como.
Apenas o silêncio e o calor. O refúgio do lugar. Este Verão com instintos de sangue. 
Nenhuma memória justifica porque há tantas e são inúteis, nenhuma ficção por estar tudo inventado quando daria outra vida ao que se viver. De nenhum sentimento seria capaz de captar a forma de o escrever. A tarde vai lenta, escorrendo, e é Domingo.

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