A aparência do lugar


Anos volveram. Regressei ao lugar ou, porventura melhor dizendo, ao local. O espírito que o habitava, a alma que coexistiria com o que julgamos apenas corpóreo, tinha-se ausentado. Um hálito a desolação, bolor de arrecadação há muito esquecida, povoava esta casa.
Outrora fora aqui, na aparência das coisas, preceptor de meninos, tentando aprender para ensinar o que já me tinha esquecido. Hoje, desfeita a família que a habitava, cabia-me na velha casa a oportunidade de a supor minha. Onde estariam hoje todos, deixara de ter importância. Sobrevivera-lhes, sem razão.
Incertos os passos, senhor agora de espaços que haviam estado sonegados à minha liberdade, afinal então apenas serviçal, hesitante no deambular, não tinha, ainda, do domínio a pose. 
Sentia-me intruso no que agora passara a ser meu.
Há na posse a necessidade do ânimo. E eu sentia-me como um precário detentor. Não me atrevera , por isso, ainda a sentar-me. 
Chegara há pouco. O jardineiro guardara a chave e olhava-me agora com a incerteza quanto ao gesto seguinte a ter-me aberto a pesada porta de entrada. No fundo conhecera-me vindo eu um pouco acima do nada, aquela zona incerta do muito pouco. Não é fácil soerguermo-nos em importância.
O silêncio, como uma fina poalha, tornava opresso o ambiente. A depredação fizera estragos ofensivos. 
«Talvez abrindo as janelas ou ao menos os reposteiros», balbuciei, pedindo, por não saber ainda como determinar. 
Dar ordens era ainda um hábito estranho. Teria de regressar, voltando sobre os próprios passos, ao que poderia ter sido.

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