Um lugar comum

Amanhã haverá o primeiro jantar. Cerimonioso. Não faz parte do meu trabalho preocupar-me com isso. 
Terem contratado um perceptor é demasiado antiquado e tem a sua etiqueta. Talvez nem eu próprio julgasse isso possível. Mas a carta a que me responderam era clara. Escrita em bom papel, encorpado, manuscrita. Tratava-se mais do que instruir, educar, no sentido mais amplo que a palavra contivesse. 
Não sei se pode ensinar-se a senhoria. 
Pressenti na primeira conversa que Madame a confunde com a altivez. Talvez pelo modo como soergue o busto quando fala ou olha para além daquele para quem olha como se não o olhasse.
Amanhã chegarão aqueles cujas vidas me serão confiadas. Talvez sejam irmãos, um deles será rapaz e pressinto sem ter porquê que estarão pela adolescência. 
A ambiguidade tornou-se nesta casa uma forma de refinamento, perguntar uma falha de educação.
No meu íntimo talvez a ideia do jantar faça regurgitar em mim um sentimento indevido de rancor. Como se tudo lhes fosse imerecido, menos o acaso de lhes ter calhado a possibilidade desta vida. Ou talvez o fazer parte do estilo eu não ter lugar à mesa. É que há regras.