Da luz, o grotesco ruído

Tornara-se insuportável o exterior. O ruído da luz, mirrados os olhos, a dor ensanguentada de sensações. Em cada recanto do breve passeio, lixo acumulado e o seu cheiro, dejectos de vidas feitas de sobejos e desperdício. Regressava cada vez mais rápido, perdia-se cada vez menos em passeios errantes.
A cidade tornara-se inferno público. Na própria aparência vistosa se pressentia o corroer intestino da decadência.
Talvez no Domingo cedo pela manhã, antes que hordas povoassem os lugares, ocupando-os, vai-vem rodopiante como enxames, a paz fosse possível e na cidade um jardim. E sem que em tudo a arrogância da falta de maneiras, ausência generalizada sequer de um propósito, individualidades ao acaso, sem nexo, olhando tudo vendo nada. Fotografando, aprisionando do real a ilusão de que tinham estado na sua essência.
Haveria seguramente ilhotas escondidas ainda poupadas pelo desconhecimento, poupadas ao conflito e à depredação.
Naquele dia a cabeça incendiara-se de um colorido estonteante. Tremiam-lhe, incontroladas, as mãos e sentia do próprio hálito o horror.
Refugiara-se, folheando entretanto jornais. Em cada dia lhe parecia que, pensando por momentos, havia muito menos para ler do que se tinha escrito. Dobrava cuidadosamente as folhas.
Nunca vivera de ideias mas de sentimentos, feios os daquele dia. Um instante de beleza talvez-lhe pela esperança lhe trouxesse a salvação.