Viver o suficiente

Conseguira, enfim, remover da casa tudo quanto era velharia que o tempo apodrecera. Depois, o que se misturava de moderno, corrompendo o espírito do lugar. Guardou do inútil o que era símbolo e estilo, muitíssimo, pois. Da velha torradeira substitui-lhe, com paciência, o fio eléctrico por outro em que não se notava a contemporaneidade, para os candeeiros lâmpadas cuja luz parecia que o Sol se abrigara no interior do lar.
Olhava, enfim, consigo tranquilo, a paz do lugar e o toque de classe que tivera no tempo em que ali fora apenas hóspede e serviçal. Agora, diria, que o trabalho lhe legitimava o esforço, a reconstituição do que ninguém tinha querido para si. Fruía o que salvara do esquecimento e do caos.
Da família que ali habitava restava, apenas, o vestígio da sua memória e os descompostos bens que nunca tinham sabido preservar. 
Amontoara no corredor, para última tarefa, os livros mais recentes, que teria de classificar antes de lhe encontrar lugar. Talvez ali mesmo, entre o empedrado do chão e o florescer da vegetação doméstica, para que a Natureza lhes desse viço e envelhecimento. Então, sim, teriam vivido o suficiente para que a velha casa os aceitasse.