O escurecer da escrita


Decidira-se a escrever um livro sem saber ao certo o que poderia ser. Não sobre a sua vida, porque nada haveria vivido que merecesse ficar como memória, nem a vida alheia de que fora acidental testemunha poris o decoro o vinculava à reserva. 
Talvez um livro de ideias se não fosse o tímido receio de estarem tão esgotadas quanto inúteis num mundo que subsistia de coisas práticas.
O seu pequeno mundo confinara-se, afinal, a insignificâncias: não havia jornais comuns que lesse ou revistas selectivas de que fosse assinante.  Um dia dera consigo a folhear demoradamente ícones de uma religião cuja doutrina lhe não interessava, mas de que a púrpura das imagens o fascinava como um incandescente Sol, mais a rigidez eternizada das imagens, figuras em ritual sem genuflexão, sob um céu abobadado cintilante mas puramente astral sem grandeza de última divina morada mas tecto de humanos recolhidos à contemplação de si
Naquele dia iniciara umas poucas folhas desse livro. Rasgadas, já não houve outra que se lhes seguissem. 
Incapaz de tornar a primeira linha do seu escrito centrada com a quadrícula do papel, sentiu-lhe na irregularidade o pressentimento da impossibilidade. O raspar do aparo ouvia-o com a dor se a alma se lhe rasgar em fissura pela qual o corpo se lhe escapasse.
A um tremor de mãos somara-se a insídia de magoar e tanto o pulso, rígida a caneta, enclavinhada entre os dedos e já sem jeito, há tanto tempo que não a tomava para que do coração esvaísse um sentimento, do cérebro uma forma de pensar.
Decidira-se em tempos a escrever, rasgadas estavam, porém, as folhas, ao escurecer dos olhos, a noite a apiedar-se de si, através da sonolência e do cansaço, da memória não ficar traço que o demonstrasse..

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Fonte da imagem: quadro de Leonid Pasternak, aqui