A primeira linha


Passou Junho sem uma palavra aqui. E, assim, visto por quem o pudesse ler, o mundo que me é dado viver é como se não existisse. E, no entanto, afogou-me entre o que tive de fazer por obrigação e contra vontade e o que ficou por fazer sem que o querer nisso pudesse ter interferido.
Qual ante uma língua morta aprendida sem utilidade e esquecida por força das coisas práticas que trazem à tona da lembrança apenas os conhecimentos necessários, fui-me esquecendo do muito que planeara até encontrar a velha caixa de madeira doce onde outrora, estimados a graxa e por dentro enchumaçados a papel para que não se deformassem, guardava nem sei já para que propósitos uns velhos sapatos ridículos de brilhantes porque de verniz. Estava agora, perdido o seu conteúdo em qualquer tempo ido de libertação de passado inútil, abarrotada de papéis dispersos, notas e começos de escrita, como se arranques do espasmo que é, na síncope, tentar sobreviver pela já breve mas canina respiração.
Passei o mês a organizá-los em vão. Na sua incompletude está definitivamente perdida a ideia que lhes deu origem, esgotado o tempo que permitiria reatá-los.
Nasceu aí, porém, a noção de que só recomeçando sem continuar, tal quando se inicia o longo caminho sem olhar para trás pela vergonha do que se errou, tudo poderia ganhar sentido e possibilidade.
Dou comigo agora a escrever, papel a preencher-se por uma caligrafia que se tornou incerta mas com a limpidez de ser, do acto primordial, a primeira linha. Será livro de contos, sabendo que não se lêem contos e por isso mesmo precisamente. 
A ideia da eternidade a escrevê-lo, corroído o tempo mesmo pela velhice do próprio tempo, surgiu, como a frescura de uma brisa, janela que se abrisse, fugaz sentir de um ser angélico que fosse na alma o seu momentâneo pulsar e a vida fosse, palavra a palavra o Verbo a escrever-se.

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