O silêncio dos corpos


Maio: flores, chuva, Primavera errante e Inverno que ameaça não nos deixar. Incerto, entre o que fazer e o nada feito, desço, sorrateiro, indeciso, a íngreme escada e outra ainda. Passo pelo escritório, de porta entreaberta e luz coada por pesados reposteiros e mal pressinto o murmúrio do silêncio. Chega-me então, convidativo, da cozinha, o odor aliciante de café. 
Volto sobre os próprios passos e franqueio o limite que separa os senhores da criadagem. 
Sentada, ainda entre o por vestir e o desarranjo da cama, via-a então, como se pela primeira vez, feminina.
Hirta porque serviçal, quando de avental de folhos e crista na cabeça, servia à mesa, na dança ritual do jantar, não se descortinaria nela uma pessoa, quanto mais a mulher. 
Hoje, ali, neste começo preguiçoso de manhã, talvez a alvura do ombro ou a melancolia do olhar lhe hajam restituído a senhoria de que abdicava, trazendo-lhe, intacta, a liberdade de ser e sobretudo a de estar.
Durou tudo apenas o tempo que prolonguei, silencioso, evitando que os nossos olhos, que reciprocamente nos percorriam, no gozar mútuo da adivinhação dos corpos, se cruzassem. 
Se o amor se desse em goles de carinho, ter-me-ia entregue num abraço, adoçando o café daquela manhã, onde o Sol despontava, enfim.
Ao pressenti-lo, ergueu-se rápida, recompondo o semblante e a pose. O laconismo feito austeridade tornou-se frase: «eu sei», disse, em aparente despropósito, como se me tivesse adivinhado o pensamento e me respondesse na forma de um «por favor, não!».