O jogo da adivinhação


Viaja-se para longe daqui para se alcançar o mar e na praia deste, como entre gaivotas, um recanto, e dentro dele um espaço onde chegue a sombra artificial de um chapéu de sol.
São quilómetros asfaltados de luz refractada a incendiar o vidro do indolente automóvel, insectos a nele esmagarem-se, liquefazendo-se numa escorrente massa larvar, o frio gélido soprado nas narinas de um ar condicionado que trás a sensação provisória de conforto até que a porta se abra e se conclua ser ali o destino, o interminável caminho.
É depois o episódio das malas e sacos, o arrumar o que se empacotara e, enfim, à sensação da roupa ligeira iniciar-se a contagem decrescente para os dias pré-definidos de veraneio social.
Esta noite, surtiu, inesperado, um jantar com um casal que já se conhecia e ali se reencontra, como nos anos transactos, anulando a diferença do mudar de vida por uma época, a balnear.
Madame discute que toilette será para que não pareça, que restaurante terá de ser para dar uma certa ideia.
Garantido que os jovens filhos não vão, escapulindo-se para o mundo residual do tudo menos isto, resta a placidez do Senhor Engenheiro, predilecto Esposo, fácil de contentar ante o seu desinteresse que nele é máscara de desencanto.
Como soube disto, eu que não fui? Pelo fácil jogo da adivinhação, a ilação retirada do que se conhece, que o sonho trouxe, abertas as portas da solidão, a velha casa desalojada.
Vagueio agora pelos salões entregues a si mesmos e a umas sobejantes moscas a que a obscuridade, portadas semicerradas, dá asilo e campo de aviação. 
Incerto, tento ler sem convicção um pesadíssimo livro que mal consigo desfolhar, não passando das primeiras folhas, e adormeço com empenhamento. 
Acordo, enfim, entre pernas dormentes porque alçadas no sofá, a cabeça a estalar porque em suspensão na incómoda posição. 
E o suor, viscosidade humana, a marcar presença, irritante na sua miséria de trivialidade.
Ignoro que horas sejam, brilhando ainda no exterior a ameaça da canícula.

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