A dormência da razão


Acordara pela noite pela inesperada razão que leva a interromper o sono não integralmente dormido como aquelas vidas que o acaso interrompe igualmente sem motivo. 
Na escuridão da noite hesita-se sempre em restituir-nos a luz talvez para que as ideias, assim, nos pareçam mais lúcidas. E estava confuso. 
A missão ali em mais do que emprego. Contratado como perceptor, agora inútil para quem não queria aprender, fora afinal ficando. Talvez fosse já caridade que os fazia manter-me naquela forma dúbida de me ocuparem o tempo, ou a inércia, como a que nos faz conservar coisas esquecidas, eternamente sem lhes dar destino, ou as vidas por arrumar que todas as vidas toleram que é uma forma de as consentirem.
As ocupações residuais tinham-se tornado o meu pequeno mundo. Quando amanhecesse, desceria à Biblioteca ou esconder-me-ia no fundo do jardim, entre o Sol, se ele surgisse, ou o recolhimento onde o frio me não tolhesse. Leria então, esperava eventualmente que o momento trouxesse desejo de escrever. Ao final da manhã regressava a casa, evitando ser visto. 
E pensei: agora os seus dois alunos, reduziam-no ao papel de ocasional explicador. As dúvidas eram poucas porque o estudo era escasso. Um mundo enigmático formara-se entre o destino daqueles jovens e a sua pessoa. Que poderia já eu fazer que alterasse da insensatez o curso? 
Talvez se fosse um pai pudesse, pela autoridade ou pelo exemplo, marcar um rumo, encontrar-lhes no caminho o atalho. 
Os primeiros sinais de aurora chegaram-lhe àquela reclusa mansarda, como um sinal de esperança. Recolheu-se, afundando-se na dormência do cansaço. 
Talvez o dia não valesse a pena, ou porventura precisasse de um corpo forte e rejuvenescido para enfrentar do mundo a adversidade. Talvez pensando-os como filhos, pudesse viver por eles a possibilidade de que tudo fosse uma outra coisa que não aquele pequeno mundo a arruinar-se. Rabiscariam na parede garatujas insensatas e do riso fariam uma forma de contentamento.